Gemóloga transforma momento afetivo com o noivo em negócio de joias personalizadas
Quando decidiu confeccionar as próprias alianças de casamento ao lado do noivo, a gemóloga e joalheira profissional Giselly Assis não imaginava que aquele momento se transformaria em uma oportunidade de negócio. O que começou como uma experiência e reflexão pessoal acabou dando origem à Make a Wish Jewel, marca capixaba fundada em 2025 que convida casais a participarem da criação das próprias alianças e anéis de noivado.
A proposta surgiu em um momento oportuno em que consumidores buscam experiências mais personalizadas: segundo o Relatório de Tendências de Casamento 2026 do Pinterest, a Geração Z tem priorizado celebrações e escolhas capazes de refletir sua identidade e tornar os momentos mais significativos.
“Quando confeccionamos as nossas próprias alianças, percebi que o que tornava aquele momento especial não era apenas a joia pronta. Era todo o processo vivido até ela existir. Foi ali que entendi que existia espaço para transformar essa experiência em um negócio e fugir do que o mercado tradicional normalmente propõe aos clientes”, afirma Giselly.
A joalheira ressalta ainda que o atendimento é realizado por casal, para tornar a experiência ainda mais intimista, e com registro fotográfico reforçando a memória aos noivos. Ao invés de apenas escolher um modelo pronto, os clientes participam das principais etapas da produção das próprias alianças e anéis de noivado, como aquecimento, moldagem, soldagem, lixamento e polimento, sempre acompanhados por profissionais especializados e certificado de autenticidade das peças.
De experiência pessoal a oportunidade de negócio
Em meio às diversas decisões relacionadas à cerimônia do próprio casamento, Giselly percebeu que muitos momentos seriam resolvidos rapidamente, e poucos eram realmente compartilhados de forma afetiva e especial pelo casal. As alianças, no entanto, representavam algo diferente: seriam usadas diariamente e carregariam um significado permanente.
A experiência de confeccionar as próprias peças junto ao noivo despertou uma reflexão para a joalheira. “Eu queria que fosse um momento dos dois. O casamento tem muitas etapas que acabam sendo práticas e burocráticas. Nós fizemos a confecção inteira juntos, durante um dia inteiro, e testamos o que funcionaria ou não. Mas, o mais importante foi que criar as alianças juntos trouxe uma sensação de conexão muito diferente. Foi isso que me fez perceber que outras pessoas também poderiam valorizar essa experiência”, conta.
A joalheira explica que, em um momento no qual a Geração Z passa a priorizar mais as experiências, muitas pessoas não querem apenas comprar o produto final. “O produto continua sendo importante, mas a experiência é o que torna aquela entrega memorável”, afirma Giselly. Embora a proposta atraia casais de diferentes idades, a empreendedora observa uma procura maior entre clientes de 27 a 35 anos, perfil que costuma valorizar personalização, significado e maior participação no processo de criação.

Inovar em um mercado tradicional: o desafio de vender algo que o consumidor ainda não conhece
Criar demanda para uma experiência pouco conhecida é um dos maiores desafios enfrentados por empreendedores que apostam em novos formatos de negócio. Neste caso, o empreendedor não precisa apenas vender um produto, mas também explicar por que participar do processo agrega valor à compra.
A gemóloga explica que, no caso da Make a Wish Jewel, a experiência foi estruturada para tornar essa proposta possível de ser feita por qualquer pessoa, até quem nunca usou uma ferramenta de ourivesaria. “Esse foi o caso do meu noivo também, mas a junção da conexão que surgiu no momento dessa primeira experiência, com meu conhecimento técnico, foi o que tornou a nossa aliança única e especial. E essa possibilidade de qualquer pessoa poder viver um momento assim foi algo que eu priorizei em levar adiante”, explica.
“Então, antes do encontro presencial, os casais compartilham referências, contam suas histórias e definem o projeto da joia. Durante a vivência, a participação acontece com orientação profissional, permitindo que pessoas sem qualquer experiência em ourivesaria possam acompanhar o processo com segurança”, complementa Giselly.
Para a joalheira, é justamente este equilíbrio que a permitiu inovar em um mercado tradicional: manter aquilo que o consumidor reconhece, mas encontrar novas formas de entregar valor e tornar a proposta diferente.
O tamanho e a estrutura do setor ajudam a dimensionar o desafio de propor um modelo diferente. Segundo o Instituto Brasileiro de Gemas e Metais Preciosos (IBGM), este mercado movimenta no país cerca de R$ 25 bilhões por ano no varejo e, grande parte do setor ainda opera a partir de formatos tradicionais de comercialização, centrados na venda de peças prontas.
Neste cenário, criar uma empresa em que a experiência faz parte do próprio produto exigiu um esforço adicional de educação do mercado. “A proposta exige uma lógica diferente da adotada por negócios tradicionais focados em escala e padronização. Ao oferecer uma experiência personalizada, precisei equilibrar a exclusividade de uma marca premium e a viabilidade operacional para conseguir concorrer com quem já está consolidado no mercado tradicional”, explica.
Profissional jovem em um setor tradicional
Além de propor um novo modelo de negócio, Giselly construiu sua trajetória em um segmento historicamente marcado por profissionais com muitos anos de atuação e estruturas de trabalho bastante tradicionais. Bacharel em Gemologia pela Universidade Federal do Espírito Santo, possui a titulação AJP (Accredited Jewelry Professional) pelo Gemological Institute of America (GIA) e acumula 10 anos de experiência em Gemologia e seis anos de atuação em alta joalheria.
Para a empreendedora, a combinação entre formação técnica e uma visão mais contemporânea sobre consumo ajudou a identificar oportunidades pouco exploradas para se destacar no mercado tradicional. A aposta da Make a Wish Jewel acompanha uma tendência observada em diferentes setores da economia. Relatório da PwC Brasil publicado em 2026 aponta que consumidores estão dispostos a pagar até 16% a mais por produtos e serviços quando recebem uma experiência de qualidade.
Para Giselly, o dado ajuda a explicar por que mercados nos quais diferentes empresas oferecem soluções semelhantes, a experiência pode se tornar um fator decisivo na escolha do consumidor. “Por ser um setor tradicional, muitas vezes existem padrões que se repetem há muitos anos. Quando propomos algo diferente, naturalmente surgem dúvidas e questionamentos. Foi aí que a minha formação técnica se tornou importante para transmitir credibilidade ao trabalho da Make a Wish Jewel”, afirma Giselly.
A joalheira explica ainda que esse conhecimento técnico a permite tirar dúvidas dos clientes sobre as pedras, materiais e etapas de produção, dando segurança sobre cada escolha para quem está diante de uma proposta diferente da compra convencional de uma joia pronta.
Embora as peças continuem sendo o resultado final do negócio, ela acredita que o principal diferencial da empresa está justamente no caminho percorrido até elas. “No fim, a joia permanece. Mas o que os clientes mais comentam depois é a experiência que viveram para criá-la. É essa memória que faz tudo ter ainda mais significado”, conclui.
