IA deixará fase experimental e entra no centro das decisões das PMEs em 2026, prevê especialista
Depois de um período marcado pela popularização das ferramentas de Inteligência Artificial (IA) e pela curiosidade em torno da tecnologia generativa, 2026 tende a consolidar uma mudança de fase, especialmente para pequenas e médias empresas. A IA deixa de ser vista como novidade ou “atalho de produtividade” e passa a ser cobrada por algo mais concreto: impacto real na operação, nos processos e nos resultados do negócio.
Dados recentes indicam que a adoção está avançando, mas ainda de forma desigual. Um levantamento da Amazon Web Services (AWS) mostrou que cerca de 40% das empresas brasileiras já utilizam algum tipo de IA, mas entre as PMEs o uso ainda se concentra, em grande parte, em tarefas básicas, como geração de texto, apoio ao marketing e atendimento inicial.
Para a consultora Mariah Sathler, que atua na implementação de inteligência artificial em pequenas e médias empresas, esse ano pode marcar uma virada importante. “Em 2026, não vai ganhar quem só sabe pedir coisas para a IA. Vai ganhar quem consegue fazer a tecnologia trabalhar com as regras, os processos e o jeito da empresa”, afirma.
De acordo com a especialista, essa mudança tende a se materializar em três frentes principais:
Sai o prompt, entra o contexto
Uma das principais tendências para 2026 é o avanço de sistemas de IA treinados com contexto interno da empresa e não apenas com dados genéricos. Para PMEs, isso significa estruturar informações sobre clientes, decisões recorrentes, fluxos de trabalho e padrões operacionais para que a tecnologia entregue respostas mais precisas e úteis.
“Um dos erros que mais vejo nas empresas é o profissional perder muito tempo criando prompts elaborados, mas que não trazem dados concretos e específicos da empresa”, explica Mariah. “Se o processo não está claro, se as decisões não estão documentadas, a tecnologia vai devolver respostas genéricas ou inconsistentes”, completa.
Na prática, esse movimento exige organização e um entendimento profundo dos processos do negócio. Mas também traz ganhos concretos. “É realmente conversar com a IA para que ela crie uma memória sobre a sua empresa. Você quer que ela crie um manual novo? Forneça os manuais antigos, novas práticas, a forma como as lideranças devem repassar o conhecimento e todos os detalhes possíveis antes de solicitar, de fato, que ela forneça um novo manual”, esclarece Mariah. Desta forma, a especialista afirma que treinar novos colaboradores tende a ficar mais rápido, já que a IA pode funcionar como um repositório vivo de conhecimento, acessível no dia a dia. “E mais: empresas que operam de maneira informal passam a sentir mais claramente onde estão seus gargalos”, pontua.
IA com mais autonomia
Outra virada importante é a transição da IA que apenas responde para a IA que atua dentro da operação. Em vez de ser usada apenas para escrever textos ou responder perguntas, a tecnologia começa a ser mais pró-ativa e a registrar informações automaticamente, organizar tarefas, alertar sobre problemas e sugerir próximas ações.
Esse movimento já aparece nos números. Um estudo da Anthropic aponta que 77% do uso de ferramentas de IA generativa está ligado à automação do trabalho, especialmente em tarefas administrativas. No Brasil, dados da Amcham indicam que 38% das empresas já automatizam processos repetitivos, com destaque para áreas como financeiro, comercial e backoffice — justamente onde muitas PMEs concentram esforços manuais.
“O ganho não está em substituir pessoas, mas em tirar da equipe o peso das tarefas repetitivas”, diz Mariah. “Nas PMEs, isso é ainda mais sensível, porque cada hora economizada faz diferença. A tendência é liberar tempo para que líderes e equipes foquem em decisões, relacionamento com clientes e crescimento.”
A pergunta central muda: isso trouxe resultado?
Se nos últimos anos a discussão girou em torno de ferramentas e capacidades técnicas, Mariah prevê que 2026 tende a consolidar uma pergunta mais objetiva, especialmente entre pequenas e médias empresas: isso deu resultado ou não?
Um levantamento da IBM indicou que quase metade das empresas que implementaram projetos de IA já percebe retorno financeiro positivo, enquanto outras seguem testando para entender onde a tecnologia realmente faz sentido. “Em nenhuma empresa, por menor que seja, existe espaço para projetos que não entregam valor claro”, afirma Mariah. “A conversa deixa de ser ‘essa IA é boa?’ e passa a ser ‘reduziu retrabalho? diminuiu erro? melhorou a experiência do cliente? ajudou a vender mais ou a operar melhor?’.”
Para Mariah, a diferença está no nível de profundidade da aplicação. “Usar IA para tarefas superficiais gera ganhos rápidos, mas limitados. Quando as empresas aplicam a tecnologia para melhorar processos centrais e indicadores do negócio, o impacto é muito maior.” A tecnologia segue evoluindo, mas a especialista afirma que o diferencial passa a estar menos na ferramenta e mais na capacidade de aplicá-la com critério. “O amadurecimento da IA não acontece só do lado da tecnologia. Ele acontece quando o empresário entende onde faz sentido aplicar, onde não faz e o que espera como resultado. Esse discernimento vale mais do que qualquer ferramenta nova”, finaliza Mariah.
